Educar para a corrupção

2006/Junho/19, por Roberto Gorjão | read this article in English

Perguntava-se ontem Carlos Leone, do blogue Esplanar, se copiar não é corrupção, isto a propósito da notícia do DN sobre a investigação de Aurora Teixeira e Fátima Rocha que conclui por uma correlação entre a prática da fraude académica e a corrupção dos respectivos países. Critica ainda C. L.:

A mim, o que me interessa no título é apresentar a questão como se fossem dois problemas em relação em vez de um só problema.

Fonte: Carlos Leone, Blogue Esplanar – Corrupção, 18/06/2006.


Copiar não é, evidentemente, corrupção, mas sim fraude – embora se possa de facto argumentar que, para alguém praticar fraude, a sua percepção ética deverá encontrar-se previamente corrompida. No entanto, saber se se trata de dois problemas ou de dois momentos/fases de um único, é, a meu ver, irrelevante. O que importa é que a fraude académica é percursora da corrupção profissional! Na família, na escola, na universidade e na sociedade que as contextualiza definem-se os comportamentos que os futuros profissionais exercerão, potencialmente ao longo de toda a sua carreira profissional, porque os valores e atitudes não se reciclam tão facilmente quanto os conhecimentos técnicos.

Enquanto professor de Desenho e Geometria Descritiva B, de turmas de cursos técnicos – no caso de Climatização e Frio –, recordo-me de os meus alunos, alguns dos quais a estagiarem em empresas, me virem contar, com orgulho e excitação, de como haviam ajudado a defraudar, consciente e premeditadamente, um cliente importante (um hospital em obras de remodelação):

– Professor, nós fizemos a canalização de retorno da água quente mais curta!… Eles vão ter de chamar-nos outra vez para reparar!

Depois de algumas perguntas, percebi que a canalização de retorno é a componente circular da canalização de água quente que garante em alguns casos o aquecimento de algumas dependências ao longo do percurso mas, sobretudo, que a água sairá quente nas torneiras tão cedo quanto possível. Como esta é uma funcionalidade importante num hospital, imaginavam os meus alunos e respectivos empregadores, talvez ingenuamente, que aquele teria de os chamar futuramente para corrigirem o problema, o que implicaria novo orçamento e correspondentes dividendos.

Quando os questionei sobre se não se importavam com a possibilidade de os doentes do hospital sofrerem as consequências do seu mau trabalho, manifestaram uma impressionante ausência de escrúpulos, um notável egoísmo, mas também uma consciência perfeita da realidade:

– Professor, se não o fizermos não conseguiremos sobreviver! Outros o farão e nós é que ficamos a perder.

Esta ocorrência, dos meus primeiros anos de experiência, ainda no meu período probatório, marcou-me justamente pela impotência que me fez sentir, pois apercebi-me desde logo que o meu escândalo não fora o suficiente para lhes mudar a atitude e que, ainda por cima, não poderia hostilizá-los demasiado se queria manter algum ascendente positivo que me permitisse continuar a trabalhar o tema dos valores ao longo do resto do ano lectivo, à medida do que me permitisse o pouco tempo sobrante na leccionação de uma disciplina eminentemente técnica e de razoável dificuldade.

As autoras deste trabalho de investigação apontam como solução a educação. Hoje em dia a opinião pública – e as próprias investigadoras, a acreditar na notícia – parecem associar a educação apenas às instituições de ensino, pelo que me parece importante realçar o que deveria ser óbvio: que a educação não se faz apenas nas escolas e que somos todos responsáveis por ela – nas nossas famílias, nos nossos locais de trabalho, enquanto cidadãos, na medida das oportunidades e/ou responsabilidades de intervenção que criamos ou que nos são conferidas. Não é aceitável da parte de nenhum cidadão, profissional ou encarregado de educação a demissão das suas responsabilidades enquanto agente de ensino, porque todos o são/somos efectivamente. Assim, a solução dos problemas da fraude e da corrupção não pode simplesmente ser atirada para cima das escolas, antes está-nos permanentemente outorgada, a todos nós, como problema social que é.

A responsabilidade cabe ainda, em parte substancial e por maioria de razões, ao poder político. Não é possível esperar-se que a corrupção se resolva por iniciativa individual, sem o exemplo e a tomada de medidas correspondentes e adequadas por parte dos políticos. Quando assim acontece e a sociedade colhe dos seus dirigentes práticas contraditórias com a letra da lei, os cidadãos reafirmam a mesma convicção dos meus alunos… se não o fizermos também, não conseguiremos sobreviver! E só aqueles que nunca foram responsáveis por uma actividade comercial podem duvidar da legitimidade do raciocínio, pois, numa sociedade gerida por princípios maioritariamente liberais e capitalistas, há pouco lugar para contemplações e as regras têm necessariamente de ser impostas por entidades imparciais e com poder regulador.

E, da mesma forma que no artigo do D.N. foi apontada a necessidade de medidas punitivas de maior alcance para os estudantes apanhados a copiar em exames, a justiça e a eficácia na aplicação das leis é outro aspecto fundamental para a eliminação da corrupção.

É em consequência da inexistência, insuficiência ou ineficácia de todas estas condições que se pode infelizmente concluir, como o faz Aurora Teixeira, que não se prevê que a médio prazo a situação vá melhorar e que, de facto, a sociedade no seu todo educa para a corrupção.

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