A Igreja Católica e o actual Papa excederam-se esta Páscoa, uma vez mais, nos sinais de intolerância que emitiram. Um dos mais flagrantes terá sido a amplamente noticiada e infeliz expressão sobre o homem imundo
:
O que é que torna o homem imundo?”, perguntou o Papa. “É a soberba de acreditar que não precisa de purificação, de fechar-se à vontade salvadora de Deus. É a soberba. Em Judas, vemos essa rejeição com mais clareza. Avalia Jesus segundo as categorias do poder e do êxito. Para ele, só o poder e o êxito são realidade, o amor não conta. Tem avidez de dinheiro, que é mais importante que Deus e o seu amor.
Fonte: Jornal da Madeira.
Para Bento XVI, cuja expressão, segundo as convenções da Igreja Católica, é infalível, todo aquele que se alheia de Deus – o ateu e, possivelmente, o crente em outros, falsos, deuses – é pois imundo. Um imundo comparável a Judas. É a soberba do Papa e da Igreja.
Mas não se ficou por aqui. No Vaticano, a procissão pascal da Sexta-feira de Cinzas, que reproduz a Paixão de Cristo, é uma verdadeira encenação que recorre inclusive a actores para declamarem reflexões a propósito de cada uma das suas etapas, nas quais a Igreja Católica aproveita para reafirmar as suas posições. Bento XVI delegou este ano ao Arcebispo Ângelo Comastri a tarefa, sua em anos anteriores, de redigir estas meditações. O resultado foi um texto pusilânime, quer na sua falta de qualidade íntrinseca, quer no arcaísmo e desajustamento, já crónicos mas cada vez mais surpreendentes, das ideias transmitidas.
Entre outras referências, fez-se a habitual apologia da família, demonizando a desobediência ao formato heterossexual tradicional, numa mais do que clara referência aos casamentos homossexuais (o Vaticano reafirmou ainda há poucas semanas que continua a considerar a homossexualidade uma doença) e às uniões de facto:a família é um sonho de Deus confiado à humanidade
; Senhor Jesus, salva a família, para que a vida seja salva!
; Certamente é dolorosa paixão de Deus a agressão contra a família. Hoje parece estar em acto uma espécie de anti-Génesis, um anti-desígnio, um orgulho diabólico que pensa em cancelar a família.
A Igreja continua também a defender a castidade pré-nupcial e a abstinência: sobre a pureza foi astutamente imposto um silêncio geral: um silêncio impuro! Até se espalhou a convicção – totalmente falsa! – de que a pureza é inimiga do amor.
; só quem é puro, pode amar sem enlamear.
Mais surpreendente, pelo menos para mim que nunca antes me tinha dado ao trabalho de ler estas meditações, foi o apelo feito à persecução do papel passivo da mulher, retratada sempre e apenas enquanto mãe e esposa: temos necessidade de mulheres, de esposas, de mães que restituam aos homens o rosto belo da humanidade.
; …porque uma verdadeira mãe ama mesmo quando não é amada.
Pergunto-me se muitos dos auto-designados fiéis do catolicismo estarão a par deste tipo de linguagem demonizadora com que a sua Igreja continua a caracterizar aspectos da realidade e da sociedade que, hoje, ninguém minimamente informado se lembra de contestar. Os discursos inflamados repetem-se, no presente, quase com o mesmo fundamentalismo de outrora, não tão distante do que caracteriza outras religiões. Nesta mesma Sexta-Feira da Paixão, um dos mais altos oficiais do Vaticano, o padre capuchinho Raniero Cantalamessa – orador oficial do Pontífice – atacou violentamente o livro “O Código da Vinci“, de Dan Brown, não pela sua insuficiência literária, o que teria sido justo, mas pela licensiosidade criativa do autor que o fez questionar a crucifixão e a ascensão aos céus de Jesus (no argumento do livro, este casa com Maria Madalena com a qual foge e gera descendência). Heresia! Arte pseudo-histórica
! – crama Cantalamessa, da mesma leva aproveitando também para condenar o filme baseado no livro, ainda em preparação, e o “Evangelho de Judas”.
Compreende-se a irritação de Cantalamessa e do Papa. De facto, estas são ideias que desmascarariam o ritual pascal como apenas isso – um rito. O que ambos convenientemente omitem é que as teses da não crucifixão de Jesus ou da sua sobrevivência posterior não são novas: o Alcorão defende-o há quase catorze séculos (para os muçulmanos, foi Judas quem foi crucificado e não Jesus); e, o próprio Irineu (o discípulo de Policarpo que veio a ser Bispo e Santo e é hoje considerado pelo Catolicismo como um dos Pais da Igreja), que foi o primeiro a distinguir, no séc. II, os evangelhos autênticos – divinamente inspirados
– dos falsos (mais de quarenta, entretanto designados por heréticos ou apócrifos), afirmou a longevidade de Cristo – …was more than fifty years old when he died
(Adversus Haereses, 2.º vol., Chapter XXII) – e subvalorizou a crucifixão, uma vez que, para ele, tal como pressuposto no Evangelho de Judas, o importante na vida de Jesus teria sido a sua obediência aos ditames divinos, obediência com que redimiu o pecado original e ao mesmo tempo todos os nossos…
…obedecendo, se fez causa de salvação tanto para si como para todo o gênero humano.
Irineu: Adversus Haereses
A selecção que Irineu faz dos Evangelhos canónicos baseia-se em suposições subjectivas a respeito da sua autoria, por os considerar os únicos que teriam sido efectivamente escritos pelos apóstolos apontados como seus autores – o que tem sido amplamente disputado – bem como em considerandos lógicos: …não é possível que possam existir nem mais nem menos do que quatro
, afirma, justificando-se na existência dos quatro cantos da Terra e dos quatro ventos. Entre os evangelhos que Irineu conhecia e menciona explicitamente, ainda que repudiando-os como espúrios, encontra-se o de Judas, o que torna fúteis e grosseiras as tentativas de apresentar o recém-descoberto pergaminho como uma invenção. Este, como outros evangelhos, não pretende ter sido escrito pelo próprio, nem nega a traição de Judas, mas apresenta-o como o mais completo dos apóstolos e a traição em si como um acto positivo, solicitado pelo próprio Jesus, o que não teria sido compreendido pelos restantes apóstolos, por isso mesmo criticados pelo Messias.
De todas as maneiras, independentemente de o Evangelho de Judas ser considerado verdadeiro ou não, hoje é a Igreja a primeira a ressaltar que a morte de Jesus era necessária e fundamental para a redenção da humanidade. Se assim é, então a condenação eterna de Judas, por ter proporcionado as condições para que tal se pudesse realizar, parece castigo francamente excessivo. Mas, se Judas, por aquela traição potencialmente piedosa, merece as eternas penas do Inferno, então sofreu e sofre muito mais longamente do que o próprio Jesus e o seu papel, como redentor dos pecados da humanidade, é de maior relevo ainda…
Talvez este Papa, Bento XVI, venha a ter de fazer como o seu predecessor do mesmo nome, Bento XV, que, em 1920, pediu desculpa pelo lapso da Igreja ao condenar Joana d’Arc, a padroeira de França, à fogueira, por dar ouvidos a vozes demoníacas… Afinal, admitiu Bento XV, não eram de demónios, mas sim de santos, as vozes que ouvia, e declarou-a santa a ela também.
…
Aos que, estoicamente, acompanharam este artigo até aqui, devo advertir que pecaram duplamente, não só por terem lido escritos claramente heréticos como por o terem feito na internet:
De acordo com o Vaticano, passar muito tempo a ler jornais, a ver televisão ou a navegar na Internet diminui a dedicação à fé cristã, pelo que aquelas actividades devem ser consideradas como dos “novos pecados”.
Cardeal Francis Stafford, penitenciário-mor do Vaticano, citado pelo Público

Muito interessante este artigo. A igreja Católica, como outras, continua a viver num mundo que é só dela e que fora do seu contexto se torna incompreensível e até ridícula…
É natural, que em tempos de crise económica e cultural, como os que se actualmente vivem, se desbravem terrenos fertéis ao cultivo da obscuridade e da hipocrita ignorância (correntemente denominada estupidez). Bons tempos para a Igreja se manifestar mais despudorada na expressão das suas intenções de domínio expansionista. Aproveita então para arrebanhar mais crentes, que procuram na palavra divina panaceia contra o medo. Por consequencia, a palavra Divina torna-se mais ríspida, e sem pejo em reconquistar territórios antes cedidos à religiosidade ecuménica e a paridade entre géneros. Até arriscam a necessidade de retornar aos velhos tempos de vivência negativa da espiritualidade, com silêncio, castidade, suplícios e abnegações. Neste campo, parece-me perigosa tal afirmação:
“Cada mãe é transparência do amor,
é domicílio de ternura
é fidelidade que não abandona,
porque uma verdadeira mãe ama
mesmo quando não é amada.”
Talvez porque trabalho muito perto de casos sociais, e em especial, de violecia doméstica, nao posso deixar de reparar que a igreja catolica utiliza as mesmas tecnicas que os ofensores sexuais, abusadores físicos e psicológicos poem em practica para subjugar as suas vitimas. Não subestimem o seu poder. Trabalho no terreno e verifico que esta propaganda eclesiastica tem fortes implicações transformativas nas dinamicas sociais. Espero, com temor, o dia em que tenham um poste e troços de lenha regados com benzina a minha espera, no largo do pelourinho mais proximo. Já desconfiei mais sobre a hipotética proximidade de um tal evento.O padre da paroquia ja reclamou do meu trabalho. Declama, nos seus sermões, que lhe roubo clientela para as confissões.
Afoitos, estes meninos, estarão dominados pela soberba?
Sempre estiveram dominados pela soberba! Por isso, também, é importante não calarmos a nossa indignação e os nossos pontos de vista. O facto dos ateus e agnósticos serem em geral mais tolerantes para com a diferença e relutantes à divulgação das suas opiniões do que os religiosos tem feito com que muitas opções políticas e alterações sociais desejáveis tardem mais do que o devido. Foi por exemplo o que aconteceu com o último referendo sobre a descriminalização do aborto, em Portugal. Foi tal a movimentação por parte dos objectores, nomeadamente recorrendo a campanhas falsas e enganosas, e tal a apatia na resposta por parte dos defensores, que o não acabou por vingar. Da mesma forma tu, como profissional da Psicologia Clínica, mencionas sempre as diversas opções aos teus pacientes com igual respeito e comedimento, mas o padre da paróquia provavelmente não se coíbe de se insurgir recorrendo a metáforas e comparações menos elogiosas e alertando para perigos e castigos. Porque, para a Igreja, a mentira piedosa é algo que ainda hoje é legítimo ensinar-se na catequese, transmitindo-se a noção de que os fins – a salvação das almas – justificam os meios.
É importante manifestarmos os nossos pontos de vista e exercemos também uma pressão moderada e persistente. Dou-te mais um exemplo: quando cheguei à Póvoa de Lanhoso, como professor, em 1998, os alunos, no último dia de aulas antes da Páscoa, todas as Páscoas, eram dispensados para realizarem o confesso, a confissão pascal assegurada pelos padres professores de Religião e Moral… nas salas da escola! Era vê-los a fazerem fila à porta das três salas, à espera de vez. Da mesma forma, estranhava-se que os professores não quisessem acompanhar os alunos à Missa Pascal e o padre mais velho subia sempre à sala de professores para tomar nota dos dissidentes. Hoje, 8 anos passados, foi esta a primeira vez em que nada disso aconteceu e a direcção, a mesma por sinal, resolveu que quem se quisesse confessar trataria de o fazer nos seus tempos livres. Creio que, para que isto tivesse acontecido, não terá sido indiferente a minha passagem pela escola e, sobretudo, a da minha mulher, que se manteve lá desde então… e também o espírito de um colega que um dia resolveu disfarçar-se de padre, colocar um colarinho e ir tomar a confissão aos meninos…
Considerou o historiador Jacques Le Goff que a Idade Média se prolongara até ao Séc. XIX… Eu não concordo: não é tão cedo que entraremos numa nova Idade, nem à “luz” das concepções de Agostinho em A Cidade de Deus … A Idade Média aí está, sempre presente e persistente, a Ocidente como a Oriente e em todos os sectores - sem ofensa para os espíritos medievais mais lúcidos! O melhor mesmo é precavermo-nos, contra as novas fogueiras inquisitoriais, contra os concertados assaltos à inteligência e à justiça ou aos direitos individuais e sociais, contra a farsa das falsas democracias, contra a tirania economicista e o interesse e liberdade de uns em explorarem os outros, contra a ditadura globalizadora que afoga o multiculturalismo, contra todas as imposições acéfalas e fanáticas. E para isso há um só recurso: o da abertura e extensão clara das consciências, por todos os meios legítimos!