A Apple lançou hoje uma nova versão, 3.0, do seu navegador – o Safari – com uma característica muito especial: pela primeira vez este navegador corre também em Windows!… Bem, corre é uma força de expressão: digamos antes que inicia, pois, a partir daí os bugs são tantos que mais vale desistir, pelo menos para os utilizadores do Windows XP SP2. Inúmeros problemas têm sido reportados entre os quais alguns que eu próprio confirmei: ausência de fontes no interface (o que torna a aplicação completamente inútil, já que é impossível escrever URL na barra de endereços) e, mais incrível ainda, um botão para reportar bugs que crasha a aplicação. Se nem o sistema de reporte de erros funciona, a versão nunca deveria ter sido lançada como beta, mas, quando muito, como alfa e, mesmo assim, com os devidos alertas ao utilizador a respeito da improbabilidade de um correcto funcionamento. Assim, é ridículo e desprestigiante para a Apple.
Não que me importe muito… Na verdade, até prefiro assim: espero sinceramente que o Safari não vingue, nem na plataforma Windows, nem na Mac, já agora!
Porquê? Poder-se-ia de facto argumentar que a existência de múltiplos browsers, comerciais e open source só poderia trazer vantagens, contribuindo para uma maior “diversidade genética” e para uma saudável competição que só poderia beneficiar o consumidor. Mas, sinceramente, ao longo dos anos e após milhares de euros perdidos, aprendi a detestar visceralmente as políticas comerciais de Steve Jobs e da Apple, políticas que conduzem a uma obsolescência programada do software apple (já não falando do hardware), uma estratégia das mais condenáveis em qualquer empresa.
A prová-lo está, mais uma vez, o facto desta nova versão do Safari ter como requisito mínimo, na plataforma Mac, a versão 10.4.9, versão que nem é comercializada, antes correspondendo à última actualização disponível on-line para a versão 10.4.6, esta sim a última versão disponível para aquisição comercial pelo módico preço de $129. Os compradores de máquinas com pouco mais de um ano de vida e que vinham com a versão 10.3.x ficam pois impossibilitados de utilizar a última versão do Safari sem fazerem o upgrade prévio – e pago! – do seu sistema operativo, como aliás já acontecia com a versão 2.0 do Safari. Isto não é justificado por nenhuma exigência específica do WebKit, o software que serve de base ao Safari, o que se comprova facilmente verificando, por exemplo, que o Sunrise 1.0.6 (versão também acabadinha de lançar há apenas dois meses), outro navegador que também utiliza o mesmo motor de rendering, ser compatível com a versão 10.3 do Tiger. Resulta exclusivamente da vontade da Apple em rentabilizar da maneira mais maximizada o seu investimento no desenvolvimento de novas ferramentas. Pagará quem queira, naturalmente.
No que diz respeito ao Windows, a Apple já foi um pouco mais benévola: supostamente o Safari 3.0 será compatível com as versões XP e Vista do Windows. De fora ficam, todavia, os utilizadores do Windows 2000, de novo injustificadamente já que o Swift, mais um navegador baseado no WebKit, corre também naquele sistema operativo. E com certeza que aquela benevolência para com os utilizadores do Windows XP não foi motivada pelo desejo de lhes agradar mas tão somente pela vontade em penetrar tão amplamente quanto possível no mercado PC.
Voltando à Apple, o Safari é, pois, neste momento, o navegador mais caro do mundo! Não pelo seu custo intrínseco, mas por requerer dispêndios constantes em actualizações do sistema operativo, se quisermos utilizar as últimas versões e beneficiarmos das respectivas funcionalidades e actualizações de segurança. O utilizador comum poderá não sentir essa necessidade e simplesmente resolver-se por manter a versão que recebeu com o seu computador. Ao fazê-lo, todavia, incorre em riscos acrescidos e, sobretudo, acabará mais cedo ou mais tarde (geralmente mais cedo, já que o Safari é ainda um navegador com muitos problemas por corrigir a nível de rendering) por usufruir de uma forma lacunar das páginas por onde navega, pois a sua versão do Safari já não será capaz de interpretar correctamente todo o respectivo código. Isto é simplesmente inadmissível, sobretudo por comparação com o trabalho desenvolvido por outras entidades sérias – como a Mozilla ou a Opera – que sempre se esforçam por garantir a máxima compatibilidade retroactiva das suas novas versões, demonstrando assim que é possível fazê-lo!
Se o utilizador comum ainda suporta, muitas vezes sem deles se aperceber, os inconvenientes da obsolescência programada do Safari, pelo menos por algum tempo, esta não deixa todavia de provocar problemas graves ao profissional da Web, seja ele designer ou programador. Não só por ter de despender assiduamente valores elevado para a manutenção de uma plataforma de testes actualizada, como por, mesmo assim, se apenas contar com um computador Mac, como acontece comigo, isso não ser suficiente: o Safari permite a instalação de uma única versão por máquina. Eu próprio já interroguei directamente a Apple sobre este assunto e foi-me confirmado que nem mesmo para profissionais está contemplada qualquer excepção ou alternativa. Se quisermos ter mais do que uma versão do Safari em simultâneo, para assim podermos experimentar as páginas e aplicações Web por nós criadas e garantirmos a sua correcta visualização e utilização em todas elas, apenas poderemos optar por:
- comprar tantas máquinas como as versões com que quisermos testar;
- instalar softwares de emulação que, mesmo assim, requererão outras tantas licenças dos sistemas operativos.
Não, sinceramente estou farto: se os consumidores quiserem deixar-se enganar, paciência! Como Web Designer, manterei o meu Mac Mini – que adquiri somente para testes – actualizado para a última versão disponível do Safari, por uma questão de profissionalismo e até de curiosidade técnica. Mas, aqueles que, por inércia e falta de iniciativa para defenderem os seus próprios interesses, continuarem a optar por utilizarem o navegador instalado por defeito nos seus Macs, muitas vezes em versões já desactualizadas no próprio momento da aquisição, tenham paciência pois a informação está largamente disponível – existem várias alternativas muito mais vantajosas e sem qualquer dos problemas acima mencionados, entre as quais as que se seguem (disponíveis, gratuitamente, para Mac, Windows e Linux):
Para finalizar, ainda um alerta aos utilizadores, particularmente os do Windows Vista, que eventualmente consigam instalar funcionalmente esta versão beta do Safari: ao que parece, a segurança deixa muitíssimo a desejar!
