Semana de folguedo na Absurdolândia

2006/Outubro/22, por Roberto Gorjão | read this article in English

Pode-se dizer o que se quiser a respeito dos portugueses, mas tiro-lhes sempre o chapéu no que respeita ao bom humor: qualquer que seja o evento social, político ou outro, algumas horas depois já circula uma anedota a esse propósito na net, nos telemóveis, nos autocarros, nas filas para o cinema…

Recordar-se-ão, por exemplo, de quando a dependência do BES em Setúbal foi assaltada no início deste mês; uma situação que mereceu projecção mediática por ter envolvido o sequestro de reféns por algumas horas… Pois, apenas alguns dias depois chegou-me por SMS a seguinte anedota, que provavelmente já conhecerão:

Interrogado sobre por que razão escolheu assaltar uma agência do BES, o assaltante respondeu: ‘Bem, não tendo pais ricos nem me saído a lotaria…’ :-D

Fonte: mensagem de SMS.

O humor é contagiante e, ultimamente, nem a classe política lhe tem sido avessa. Em todas as bancadas parlamentares, no próprio Governo, é vê-los, aos nossos políticos, disputando a autoria da melhor tirada humorística, do improviso de antologia. A semana que acaba de terminar não foi excepção, antes pelo contrário, estando a dificuldade em seleccionar de entre todas as mais geniais. Ora vejamos:

A semana começou, hilariante, com a apresentação da proposta governamental para o Orçamento de Estado de 2007. Com uma extraordinária segurança de actuação, Teixeira dos Santos afirmou ser este um orçamento que não aumenta impostos nem a carga fiscal e que promove a redução da despesa pública! Foi uma performance única, na qual, ao longo de muitos minutos, na Assembleia e em entrevistas dadas aos media enquanto caminhava na rua, Teixeira dos Santos deu uma lição de representação com uma tal naturalidade, uma tão perfeita assunção do papel encarnado que ofuscou muitos profissionais das artes do teatro e do cinema. Uma revelação! Será que ele também canta, dança ou faz sapateado?

Entretanto, aquele que se tem afirmado desde a sua abertura como um dos mais atentos críticos do desempenho dos nossos humoristas, o semanário Sol, vem a público com a possível inconstitucionalidade do Orçamento de Estado, inconstitucionalidade aliás defendida por Vital Moreira e por Marcelo Rebelo de Sousa por nele estarem implícitos ou mesmo explicitamente pressupostos procedimentos financeiros que só serão legais após a aprovação de outras leis, polémicas, ainda em discussão e que poderão mesmo suscitar a hipótese de veto presidencial. Brilhante! É raro ver-se um adensamento da intriga desta natureza no humor nacional! Teixeira dos Santos está de facto de parabéns por ter reunido uma equipa de criativos deste calibre e Sócrates também por ter patrocinado a sua apresentação pública! O suspense conseguido é genial e é de facto com expectativa que aguardo os próximos capítulos desta saga que peca apenas pela repetição anual do seu tema base…

Depois veio a trapalhada da liberalização da electricidade. Durante semanas, ou mesmo meses, fomos seduzidos com a ideia de que a quebra do monopólio da EDP abriria o mercado à participação de outras companhias de electricidade, o que acabaria por actuar em nosso benefício, como aliás se verificou com o sector das comunicações há alguns anos atrás. Entretanto, a obscura personagem que dá pelo nome de Entidade Reguladora do Sector Eléctrico propôs segunda-feira, em voz-off, um aumento médio das tarifas superior a 12%, que atingiria mesmo os 15,7% para o consumidor doméstico. Manuel Pinho, numa sublime interpretação do difícil estilo trapalhão, manifestou-se – com inultrapassáveis naturalidade e à-vontade! – “surpreendido” pelos valores propostos! Confesso: o riso foi tanto que o comando da televisão me caiu da mão e por pouco eu próprio não me continha no sofá! Sobre este assunto vale a pena ler Sérgio Figueiredo, em A espiral da Mentira ou a opinião da DECO, ambos revelando todavia alguma incompreensão pelo humor de Manuel Pinho.

O sketch da electricidade teve ainda continuidade, à laia de bónus extra-programa, com o episódio do secretário de estado que veio a público dizer que a culpa dos aumentos era dos consumidores, para depois retratar-se dizendo que tinha tido um mau dia… Teve alguma piada, mas, enfim, depois do espectáculo principal dado por Manuel Pinho, soube a improviso…

Maria de Lurdes Rodrigues e Jorge Pedreira estiveram também divertidíssimos, como aliás vem sendo seu apanágio. Na sequência do trabalho humorístico desenvolvido nas semanas anteriores, sempre inovadores e originais, começaram por ironizar a respeito dos valores de adesão à greve dos professores… dizendo que teriam sido de pouco mais de 30%. As minhas filhas, uma no secundário e outra no básico, acharam-lhes imensa graça já que, no primeiro dia de greve, apenas uma delas teve uma aula, dada por um professor que lhes explicou que, mau-grado a sua vontade, tinha mesmo que trabalhar pois não se podia dar ao luxo de perder o vencimento – por ter conseguido apenas um horário parcial! Jorge Pedreira arriscou depois nova interpretação a solo, num registo algo ingénuo entre as figuras clássicas do palhaço sério e do bobo da corte, tentando chantagear os sindicatos do sector – ameaçando-os do não os aceitar em futuras negociações – para logo a seguir os tentar comprar – oferecendo aos dirigentes sindicais a possibilidade de verem o tempo prestado nessas funções equiparado ao serviço docente efectivo… Maria de Lurdes Rodrigues teve uma parte gaga quando resolveu comprar uma “ auto-entrevista” nas páginas centrais de alguns jornais, uma brincadeira que nos custou a todos alguns milhares de euros e que revelou fraqueza e falta de auto-confiança. O mesmo aconteceu outra vez quando o “Público” apresentou o ranking das escolas secundárias face aos resultados obtidos nos exames… Enfim, é difícil ainda dizer se Maria de Lurdes procura um novo estilo de representação ou se simplesmente se espalhou ao comprido, embora, pessoalmente pense que esta última hipótese é a mais provável.

Não contente com o sucesso citado acima, temendo talvez a competição dos seus colegas da Educação, Manuel Pinho, que já na semana passada havia conquistado as plateias com a declaração do fim da crise e, depois, sempre usando da mesma tranquilidade, com a sua reafirmação, vem agora negá-la: em entrevista ao Sol, Manuel Pinho nega simplesmente a existência de um crise, dizendo que esta existiu sim, mas foi a seguir a 1974 e que, actualmente, o nosso desafio é diferente. Manuel Pinho justifica ainda estas artes de animador, que se diz e desdiz com toda a naturalidade, com: a função de um ministro da Economia é criar uma atitude positiva, da mesma forma que a função de um gestor é motivar os seus quadros. A acumulação das actuações desta e da semana anterior fazem de Manuel Pinho um dos meus candidatos favoritos ao político mais divertido e melhor entertainer, ultrapassando quiçá um dos meus preferidos de sempre, Alberto João Jardim, muito prejudicado pela ausência de subtileza e pela boçalidade dos textos. A Manuel Pinho auguro mesmo uma possível carreira internacional, embora apenas após a saída de Bush que entretanto ofusca todos os competidores.

Merecem ainda menção honrosa neste breve apanhado:

  • O breve sketch dos dinheiros distribuídos a entidades particulares, sem orçamentos justificativos, pela Direcção Geral de Viação, que não conseguiu a merecida projecção e atenção dos críticos talvez pela dificuldade que a produção parece ter sentido em colocar os actores em cena, tendo-se ficado pela simples apresentação da ideia em voz-off o que realmente não cativa. Para além disso, o valor apontado – 1 milhão de euros – é demasiado banal para chamar a atenção… São tantas as anedotas que correm hoje com muitas vezes esse valor que já ninguém liga. Enfim, parabéns pela ideia, em todo o caso.
  • Dentro do difícil género do humor negro e já no campo da justiça, destaque também para a sentença do caso da queda da ponte de Entre-os-Rios, onde todos os réus foram absolvidos. Depois de cinco anos de expectativa – lançada com o brilhante mote “a culpa não morrerá solteira!” –, em que o público se solidarizou com as vítimas e respectivos familiares, eis que o acordão final vem sugerir que o Ministério Público teria seleccionado mal os arguidos… Solução ímpar na crueldade e nos sentimentos de frustração e desalento que desperta! Parabéns ao Ministério Público! Não fosse este um estilo menos apreciado, e estou certo de que as luzes da ribalta lhe seriam mais favoráveis. Mas, não há que perder a esperança: a acumulação de sucessos é uma das vias para o estrelato e temos ainda os desfechos dos processos do Apito Dourado e da Casa Pia pela frente…

Enfim, peço desculpa por todos aqueles brilhantes humoristas que não pude referir, desta inesquecível semana de folguedo… Gostaria de os poder incluir a todos, como modesta paga pelos momentos de indizível burlesco e consequente riso alvar que me proporcionaram, mas como muito bem nos ensinou a Maria de Lurdes Rodrigues, nem todos poderão atingir a titularidade neste blogue, independentemente da excelência que manifestem no seu desempenho… Lamento!

Por outro lado e sem querer ser aborrecido, penso que já seria altura de dedicarem alguma atenção aos vossos day-jobs, até porque, por muito agradecidos que estejam os portugueses pela distracção proporcionada, existem alguns problemas a resolver…

Um comentário sobre “Semana de folguedo na Absurdolândia”

  1. António Ferrão em 23 de Outubro de 2006 às 19:08 :

    Muere lentamente … quien no encuentra gracia en sí mismo (Neruda)
    Rir é mesmo o melhor remédio.

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