Já muito se escreveu, com toda a pertinência, sobre as prioridades que se adivinham subjacentes às escolhas das notícias que recebem relevo nos telejornais da televisão pública. A 5 de Outubro foi insultuosamente evidente o cuidado com que se procurou relegar para último plano a maior manifestação de professores de sempre, assim como, já agora, o discurso do Presidente da República sobre o tema da corrupção. Ambos são temas de monta, fundamentais para o país; a manifestação em si foi uma expressão inequívoca de um sentir que traduz uma autêntica convulsão social. Nada pode justificar as opções realizadas pelas direcção de informação da RTP1 e da RTP2 senão o óbvio interesse em deturpar e camuflar! Preocupantes são os tempos que correm…
Não estava à espera, todavia, que Marcelo Rebelo de Sousa cometesse idêntico erro, ontem, na sua análise semanal – “As Escolhas de Marcelo”…
Marcelo não só remeteu para quarto ou quinto ponto de análise a questão, como a tratou de forma manifestamente insuficiente e ligeira, obliterando a dimensão da manifestação e correspondente significado social, dando a entender que os professores estão contra a sua avaliação ou o estabelecimento de regras para uma progressão baseada no mérito, o que é falso. Considerou o estabelecimento de quotas para acesso ao topo da carreira como uma inevitabilidade, o que já em si é questionável – se a lógica pretendida é a valorização do mérito, então, quando este exista, deve ser premiado… o contrário constituirá naturalmente perversão deste mesmo princípio e desincentivo profissional! –, não se apercebendo ou escamoteando os moldes em que esse acesso está previsto que reduzirão, caso sejam aprovados, mais de 80% da classe à impossibilidade de atingir o estatuto de professor titular, logo transformando a carreira docente numa carreira sem futuro e sem esperança. Apesar de afirmar ter lido a proposta de estatuto do ministério, não se referiu a nenhum dos seus mais bárbaros atentados aos direitos elementares de qualquer profissional, como seja o de adoecer, ou de assistir aos seus descendentes na doença, sem consequente perda de possibilidades de progressão. Não percebeu ou esqueceu convenientemente que qualquer pós-graduação que os professores adquiram (mestrado, doutoramento ou outro) deixarão de ter qualquer consequência para a sua progressão, o que é perfeitamente anormal quando ao mesmo tempo se defende ou diz defender a continua reciclagem profissional. Considerou natural e desejável a realização de um exame, da responsabilidade do ministério, a todo o candidato a professor, pondo assim em causa, implicitamente, todas as avaliações realizadas anteriormente pelos respectivos cursos de formação (terá Marcelo Rebelo de Sousa assim em tão má conta o ensino superior de cujos quadros também faz parte?). Atribuiu à ministra a única responsabilidade de não saber “convencer” os professores, como se fosse legítima a expectativa de aceitação por parte destes de todas estas iniquidades. Finalmente, propôs que os professores não fizessem greve – aí estamos de acordo, uma vez que o efeito junto da opinião pública é apenas contraproducente –, aconselhando-os, em alternativa, a dificultarem (leia-se boicotarem) o respectivo processo de avaliação, que entendeu excessivamente burocrático para funcionar caso os professores não o quisessem… de novo insinuando que aos professores interessa é evitar a avaliação e que seriam para isso capazes de fazer recurso a qualquer subterfúgio, mesmo que ilegítimo!
Mais uma vez, espero que “os dirigentes dos sindicatos e federações percebam que este é o momento de gastar o dinheiro das quotas, de responder à campanha denegridora de que a classe tem sido alvo com uma outra campanha, abrangente, à escala nacional, concebida por profissionais. É tempo de se deixar de produzir cartazes mono ou bi-cromáticos, com grafismo e palavras de ordem saídos dos tempos do PREC.” É tempo de se inovar em termos de luta e adoptar estratégias inovadoras, eficazes e que transmitam a real preocupação sentida pelos professores com a sua carreira mas também e sobretudo com as consequências que a desvalorização da mesma trará inevitavelmente à qualidade do sistema educativo.
