A China inaugurou, no passado dia 1 de Julho, a linha férrea que une Qinghai ao Tibete. São mais de mil quilómetros a uma altitude média de 4.000 metros. A viagem de inauguração levou a que alguns dos passageiros se sentissem indispostos e vomitassem durante parte da viagem, devido à elevada altitude, apesar das cabines de fabrico canadiano serem estanques e terem uma pressão interna mantida artificialmente constante.
A China apresenta esta obra como um milagroso feito técnico que trará progresso e desenvolvimento ao Tibete, ao facilitar a importação/exportação de bens – cujos custos de transporte poderão reduzir-se até 75% – e o tráfego de pessoas, nomeadamente de turistas – cujos números deverão duplicar até 2010 –, promovendo, de acordo com o Presidente Hu Jintao, a integridade nacional e a harmonia étnica. A China planeia fazer três viagens diárias para cada lado, cada uma com capacidade para 900 pessoas.
Já os tibetanos e diversas organizações de protecção do ambiente, como a WWF (antiga World Wildlife Fund), têm uma visão radicalmente diferente:
“Esta é uma segunda invasão do Tibete”, disse Khedroob Thondup, sobrinho do Dalai Lama. O movimento Students For a Free Tibet criou um sítio – Reject the Railway – promovendo o uso de uma tarja preta no dia da inauguração, em sinal de luto. Segundo estes últimos, a linha férrea é
uma ferramenta que Beijing usará para dominar a população tibetana, explorar os recursos do Tibete, diluir a sua cultura e desvastar o seu meio ambiente.
Fonte: Sítio Reject the Railway.
Em 1980, apenas 1059 estrangeiros visitaram Lhasa. A partir de 2002 o turismo disparou exponencialmente tendo o Tibete registado em 2004 mais de 1 milhão de visitantes, dos quais 92% foram turistas chineses. Este massa avassaladora de turistas, para além das alterações que provoca no tradicional modo de vida e cultura tibetanas, poderá, directa e indirectamente, pôr em risco algumas das espécies das mais ameaçadas do planeta, nomeadamente os tigres e os antílopes tibetanos, através, por exemplo, da aquisição de produtos ilegais fabricados a partir das peles e outros orgãos daqueles animais.
O problema ecológico é a principal preocupação da WWF. O planalto tibetano, dada a sua grande altitude, é um ecossistema extremamente frágil. Qualquer dano provocado neste tipo de ambientes é extremamente difícil de reverter e a própria construção da linha já representou uma substancial agressão, tendo sido narrado que os arredores da linha se encontram pejados de detritos vários, incluíndo sacos de plástico e embalagens de consumíveis diversos.
A Natureza poderá vir, todavia, a frustrar os intentos dos chineses, cujos próprios cientistas avisaram que, dentro de dez anos, o aquecimento global poderá derreter o solo gelado em que a linha férrea assenta, provocando danos eventualmente irreparáveis na sua estrutura.
Como montanhista e conhecedor do Parque Nacional da Peneda-Gerês, considero que é possível estabelecer-se um paralelo com os recentes alcatruamentos de alguns dos seus acessos, nomeadamente o da Pedra Bela, da Cascata do Arado e a ligação Ermida-Fafião. Estes representam um acesso mais fácil e uma comodidade inegável para as populações locais, mas também um acréscimo substancial da pressão – só o Gerês recebe cerca de 2 milhões de visitantes anuais, mais do que o Tibete todo! – sobre as poucas áreas arborizadas do Gerês, o que me parece bastante gravoso e potencialmente letal para muitos dos seus habitantes, nomeadamente o corço, o lobo e o javali, não só pelo risco inerente de atropelo mas, sobretudo, por os obrigar a afastarem-se ainda mais das poucas áreas onde encontram abrigo e alimento e que não se encontram sob a ameaça permanente das queimadas dos pastores locais.

Estes chineses… Já agora deixe-me contar uma história. Há uns anos atrás, e devido ao grande desenvolvimento industrial, uma cidade chinesa, que presentemente não recordo o nome, sofreu graves problemas ambientais, nomedamente atmosféricos. Além das inúmeras chaminés industriais, os fumos que daí eram expelidos, concentravam na cidade na medida em que à volta situavam-se grandes montanhas que impediam e arejamento. Solução encontrada pelos olhos em bico: remover as montanhas! Estes asiáticos…
A RTP2 apresentou, no seu telejornal de ontem, uma reportagem sobre este assunto (não sei se o mesmo terá acontecido noutros canais). Mostraram um dos comboios, referiram-se ao aspecto tecnológico e ao ponto de vista chinês, chegando até ao ponto de entrevistarem passageiros chineses, mas, em relação aos tibetanos, apenas uma linha, breve e ambígua. Em relação ao problema ecológico, absolutamente nada. Como informação, um perfeito desastre!