Dos aniversários e da necessidade da metafísica

2006/Junho/10, por Roberto Gorjão | read this article in English

Ontem, fiz 38 anos. Não pude deixar de lembrar-me de Montaigne…

No ano de Cristo 1571, com a idade de 38 anos, na véspera das calendas de Março, seu aniversário natalício, Michel de Montaigne, desde há muito desgostado da servidão áulica e dos cargos públicos, sentindo-se ainda vigoroso, retirou-se para o seio das doutas virgens, onde, calmo e sem se inquietar com a mais pequena coisa, passará o que lhe resta de uma vida já muito avançada. Se as decisões do destino o permitirem, perfaça ele esta residência e refúgio ancestral, que ele consagrou à sua liberdade, à sua tranquilidade e ao ócio.

Fonte: inscrição que Montaigne fez pintar no gabinete adjunto à sua biblioteca, citada no prefácio de Rui Bertrand Romão a MONTAIGNE – Ensaios, Relógio d’Água, 1998.


Montaigne veio a viver mais 21 anos – morreu em 1592, com 59 anos, uma longevidade considerável, para os padrões do renascimento. Desses 21 anos, aproveitou os 9 primeiros para escrever os dois primeiros volumes dos seus Ensaios, após o que voltou a servir como presidente da Câmara de Bordéus até 1585. Apenas após esta data encontrou de novo o sossego necessário para escrever o terceiro volume, publicado em 1588.

O ócio a que se refere Montaigne não é pois conforme à acepção actual, mas sim, de acordo com o ideal senecano que seguia, condição sine qua non para a realização do seu trabalho filosófico e literário. Infelizmente, dele só terá gozado cerca de 7 anos, em plenitude, tendo sofrido após 1578 de cólicas renais particularmente penosas que o levaram inclusive a um périplo por vários países da Europa, em busca de curas. O sofrimento não tolheu todavia a sua curiosidade e a contínua prática reflexiva a que se dedicava, tendo o percurso servido de pretexto para a sua outra obra, menos conhecida: Jornal de Viagem.

Muitas coisas parecem-nos maiores quando imaginadas que quando reais. Passei uma grande parte da minha vida de perfeita boa saúde, e digo não só boa mas ainda alegre e exuberante. Tal estado, pleno de viço e de rejúbilo, fazia-me achar tão horrível a consideração das doenças que, quando vim a experimentá-las, achei as suas pontadas suaves e fracas em comparação como o que eu temia.

Fonte: MONTAIGNE – Ensaios, Relógio d’Água, 1998 (ensaio “Da Exercitação”)

Montaigne inaugurou simultaneamente o ensaio e a prática introspectiva, franca e desassombrada, que defendeu como via privilegiada para o conhecimento e para a aprendizagem:

O meu ofício, e a minha arte, é viver.[…] Pinto sobretudo os meus pensamentos, matéria informe que não se pode exprimir por actos. A muito custo posso-a colocar nesse corpo aéreo que é a voz. […] Eu exponho-me na íntegra, tal um skeletos, em que simultaneamente aparecem à vista as veias, os músculos e os tendões, cada peça no seu lugar. […] O que eu descrevo não são as minhas acções, sou eu próprio, é a minha essência. […] Porque Sócrates foi o único a compreender acertadamente o preceito do seu Deus, o de conhecer-se a si mesmo, e através de tal estudo, ter chegado a desprezar-se, só ele foi julgado digno do sobrenome de ’sábio’. Quem assim se conhecer, que tenha a audácia de, pela sua própria boca, o dar a conhecer.

Fonte: MONTAIGNE – Ensaios, Relógio d’Água, 1998 (ensaio “Da Exercitação”).

Entre os múltiplos temas por que se interessou, alguns hoje são relegados com displicência para a área menosprezada da metafísica, como seja o da morte. No entanto, são temas necessários que, numa sociedade em que a ética e a filosofia não fazem parte do currículo escolar – provavelmente por receio que as ideias discutidas pudessem de alguma forma colidir com tradições ou expressões religiosas –, marcam pela ausência e tendem a acabar por ser discutidas apenas no divã do psicanalista. Também aqui, Montaigne é uma referência actual e clarividente:

… a morrer, a maior tarefa que temos que fazer, a exercitação não nos pode ajudar. Podemos, pela usança e pela experiência, fortalecermo-nos contra as dores, a vergonha, a indigência e outros acidentes que tais, mas quanto à morte, só a podemos ensaiar uma vez – quando a ela chegarmos, somos todos aprendizes. […] Parece-me, todavia, que há alguma possibilidade de nos familiarizarmos com a morte e de, até certo ponto, a ensaiar. Podemos dela ter, se não uma experiência completa e perfeita, pelo menos uma tal que não seja inútil e que nos torne mais fortes e firmes. Se não a podemos alcançar, podemos aproximar-nos dela e fazer o seu reconhecimento; e se não penetramos na sua fortaleza, pelo menos avistá-la-emos e exploraremos os seus acessos. […] Os nossos padecimentos hão mister de tempo, o qual é tão curto e tão precipitado na morte, que forçoso é que ela seja imperceptível. São as aproximações da morte que temos de temer, e essas são passíveis de ser experimentadas.[…] Espero que com a morte me aconteça o mesmo , e que ela não valha a pena de todos os preparativos que tenho feito para enfrentá-la, nem tão-pouco de todos os socorros que tenho reunido e invocado para suportar o seu embate. Mas, em todo o caso, nunca são de mais as vantagens que nos possamos conceder a tal respeito.

Fonte: MONTAIGNE – Ensaios, Relógio d’Água, 1998 (ensaio “Da Exercitação”).

7 comentários sobre “Dos aniversários e da necessidade da metafísica”

  1. José Borges em 11 de Junho de 2006 às 14:15 :

    Parabéns!

  2. Roberto Gorjão em 11 de Junho de 2006 às 14:21 :

    Obrigado! ;-)

  3. Margarida Fernandes em 12 de Junho de 2006 às 13:23 :

    Muitos parabéns! Mas essa dos 38 anos ser uma idade avançada…

  4. António Gorjão e MPaz em 12 de Junho de 2006 às 22:34 :

    Comentário a “Dos aniversários e da necessidade da metafísica” (por A. Gorjão)

    Belo artigo. Lição magistral de Montaigne.
    Por experiência própria, posso garantir que é melhor nunca termos a “experiência” da morte!…
    Mas será bom nela reflectirmos e estarmos precavidos para a enfrentar - o mais tarde possível, que vida não há outra… E nunca da morte mais desejosos que da vida! Que morte também há só uma. E se não há vida sem morte, e se todos os dias vivemos e morremos um pouco, ou muito, enquanto houver vida é que vence - e que vença! - a vida.
    Aprecio o desprendimento dos epicuristas e de outros que optaram pela morte por entenderem que já tinham vivido e realizado o suficiente; mas há sempre mais a fazer, ou a ver ou pensar - a não ser quando o sofrimento ou as condições vitais já não o permitam.
    Respeito Sócrates e outros que preferiram a morte a abdicar das suas convicções; mas todos (eles e nós) também perdemos com isso… Que outra opção, porém, para essas situações?… Uma cedência diplomática, provisória, seria aceitável ou suficiente??… É difícil o julgamento, que talvez só a cada um possa caber…
    De outra perspectiva, e no domínio da ficção actual, com “recados” interessantíssimos, não se perca AS INTERMITÊNCIAS DA MORTE, do Saramago: que a morte não interessa só à Morte…
    Mas, mesmo que seja ou venha garrida, que morra a Morte e viva a Vida!
    É claro que talvez tudo isto sejam balelas (principalmente para os jovens); mas é claro, também, que talvez não o sejam… De qualquer modo, pelo sim e pelo não, abaixo a Morte!
    Funchal…

  5. Bruno Gorjão em 16 de Junho de 2006 às 16:50 :

    Parabéns (um pouco atrasados)! :)
    Aproveitando o mote de Montaigne, acho que hoje está-se a matar a devoção à causa pública. O exercício de funções públicas, outrora prestigiado é hoje um “minus”. Ou seja, quem ainda o vê como uma causa digna de lutar por, é certamente objecto de incómodo, quando não secreta ou publicamente apelidado de louco ou tolo por tal sequer conceber. O pior é que, contrariamente a Montaigne, não há qualquer “virgem” à espera.

  6. JOSÉ ÀLISSON PINHEIRO em 22 de Junho de 2006 às 12:29 :

    PERDI HÁ TRÊS DIAS UMA FILHA LINDA E AMÁVEL DE APENAS QUATRO ANOS E SEIS MESES. TENHO SOFRIDO MUITO, MAS O ENSAIO DE MONTAIGE SOBRE A MORTE TEM ME ALENTADO NESTA HORA DIFÍCIL. É VERDADE A AFIRMAÇÃO DOS ANTIGOS DE QUE FILOSOFAR É SE APRENDER A MORRER.

  7. António Daniel em 07 de Julho de 2006 às 0:47 :

    Então, também és de 68. Grande ano! Se os 38 renascentistas já eram considerados muitos anos, os 38 pós-modernos são uma míngua. Portanto, qualquer metafísica da morte não é para aqui chamada, apesar de sabermos com Heidegger que o ser humano é um ser para a morte…

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