As provas do M.E….

2006/Março/14, por Roberto Gorjão | read this article in English

Em 2005, um estudo coordenado por Eduardo Anselmo de Castro (cf.: págs. 11 a 13 do n.º 154, de Março de 2006, do Jornal “A Página da Educação”) denunciava a previsível e inevitável evolução catastrófica do mercado de trabalho na área da docência dos ensinos pré-primário, básico e secundário em Portugal, evolução que, de acordo com o cenário mais realista de entre os vários considerados possíveis, gerará já em 2010 um excedente de 92.840 professores. Ainda de acordo com o mesmo cenário, este excedente manter-se-á durante os 10 anos subsequentes em níveis mais ou menos constantes chegando-se a 2020 com um excedente de 94.399 professores. O cenário mais pessimista considera mesmo ser possível chegar-se aos 150.000 excedentários em 2020. Isto quer naturalmente dizer que, por incúria governativa, mais de 1% da população portuguesa, representando não menos de 2% da sua população activa, terá desbaratado anos de esforço a preparar-se para uma actividade que nunca chegará provavelmente a exercer.

Na entrevista concedida ao Jornal “A Página da Educação”, Anselmo de Castro afirma que “o Ministério da Educação conhece-o [ao estudo] e só não o divulgou porque sabe que ele é explosivo. O próprio Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP), a quem ele também foi apresentado, teve receio de o divulgar.

Que medidas toma o Governo?

Hoje, 14 de Março, os jornais anunciam que o Ministério da Educação pretende implementar uma prova nacional “de avaliação de conhecimentos e competências” para admissão à carreira docente. Os testes, naturalmente, “seriam da responsabilidade do ME e avaliariam o domínio das áreas curriculares nas quais os candidatos se formaram” (Público online, 14/03/2006).

As razões por trás das medidas…

As alterações motivadas pelo Processo de Bolonha, são apresentadas como o pretexto para esta mudança no processo de selecção dos candidatos à docência. Pressupõe-se que lhe subjaz igualmente o desejo de demonstrar rigor e exigência para com a classe que tem sistematicamente sido apresentada como uma das principais responsáveis pela degradação do estado das coisas, a nível nacional, mormente pelos maus resultados comparativos da nossa educação e pelo deficiente nível formativo da nossa força de trabalho. A meu ver, porém, a principal razão prender-se-á com os resultados do estudo de Anselmo de Castro. Ao criar mais uma barreira, mais um crivo à entrada da carreira, o Governo iliba-se de responsabilidades perante todos aqueles que chumbarem: “não, não fomos nós que os impedimos de entrar, eles é que não passaram no teste, não seriam suficientemente bons professores. Foi nossa obrigação, na defesa da qualidade exigível do ensino, negar-lhes o acesso!” De um só golpe, o executivo de José Sócrates demonstra exigência e livra-se de estatísticas incómodas, que deixarão de ser aplicáveis.
De que a criação de tal prova é profundamente iníqua, infundamentada e desnecessária, mesmo que a razão que acabo de apontar não se verificasse, não podem sobrar dúvidas. Afinal:

  • Os professores, pelas actuais regras, só podem candidatar-se após a conclusão de uma licenciatura e de um estágio profissional. Neste último são avaliados na sua competência teórica, mas também na prática, pelo trabalho que fazem com turmas e alunos de carne e osso. As classificações obtidas nas diferentes fases deste processo são irrelevantes? Será a nota obtida num exame único mais credível?
  • Se as novas regras decorrentes do Processo de Bolonha forem implementadas, tal como o Governo as prevê actualmente, aos educadores de infância e professores do primeiro ciclo será exigível uma formação de três anos (licenciatura do politécnico) e para os professores dos segundo e terceiro ciclos será exigível ainda um mestrado… Pondo de parte a diferenciação entre os diferentes níveis de ensino – que virá uma vez mais restabelecer hierarquias e distinções serôdias e ultrapassadas, para além de vir provavelmente a servir, está bom de ver, para fundamentar futuras diferenciações remuneratórias – serão aquelas formações universitárias e correspondentes avaliações prova insuficiente? É esse o crédito que o ensino universitário português merece, para o Governo? A este propósito, apetece também perguntar o que acontecerá aos estágios… Desaparecerão? Afinal, arriscar o contacto entre os alunos dos diferentes níveis escolares e os candidatos a docentes, antes da realização da prova que finalmente distinguirá os competentes dos incompetentes e dadas as suspeitas que o executivo parece ter sobre a qualidade da formação, poderá ser demasiado perigoso!
  • Uma prova de selecção introduz ainda um novo factor de incerteza e de imponderabilidade no percurso académico dos candidatos a professores. Muitos deles investirão 3 a 5 anos das suas vidas e poderão vê-los completamente desperdiçados num único momento. Poderão argumentar que isso acontece com outras carreiras, como a do direito ou a da medicina onde os profissionais só podem exercer após prestação de provas às respectivas ordens… Todavia, uma coisa (muito discutível também) é a prestação de provas a uma organização de pares, presumivelmente apenas motivada pelo desejo de garantir a uniformidade e o bom nível do desempenho profissional da classe, outra, totalmente diferente e muito mais suspeita, é a prestação de provas a uma entidade governamental sujeita a sabe-se lá que ditames políticos ou económicos. É um princípio por demais perigoso, sobretudo conhecendo-se a história recente deste ministério e a tradicional cultura portuguesa de gestão dos recursos humanos.
  • Finalmente, mas não menos relevante, está o paradoxo da aplicação de uma prova deste tipo por um ministério ligado ao sector educativo. Numa altura em que tanto se discute a relatividade das avaliações quantitativas formais, em que se sabe que muitos potenciais bons profissionais são continuamente postos de lado, em todas as áreas, por eventualmente terem caracteres menos tolerantes à tensão que uma prova deste género suscita ou por simplesmente não revelarem a sua excelência na teoria mas sim na prática, vem o ministério da educação uma vez mais privilegiar na avaliação dos docentes a sua erudição sobre a capacidade prática avaliada de forma contínua em todo o seu percurso formativo. Esta não é pois uma forma de garantir um melhor nível performativo da classe, antes pelo contrário!

10 comentários sobre “As provas do M.E….”

  1. Lisete em 18 de Março de 2006 às 20:44 :

    Parabéns! Excelente artigo. Muito claro e contundente, pena é que não tenha mais visibilidade.
    Tenho muito orgulho em te chamar amigo.

  2. Bruno Laborinho em 20 de Março de 2006 às 22:49 :

    Bem, eu já sabia que ser professor era quase uma “tarefa suicida” nos dias que correm mas ao ver estas previoes e estes números…. fiquei literalmente sem folêgo.
    Honestamente o que é que o governo anda a pensar????

    Bem quanto ao blog adorei o desenho do cabeçalho… quem me dera conseguir desenhar assim… Só acho o menu um bocado confuso no sentido em que todos aqueles riscos oblíquos dificultam um pouco a leitura das letras (especialmente as de cor vermelha). Gostei destas caixas todas personalizadas hehe… eu tenho realmente de adquirir uns “livrinhos” :P
    Enfim, o blog ainda está em construção por isso não me leve muito a sério nas minhas questões de aspecto lol!

    Cumprimentos e… vou manter um olho neste blog :) !

  3. Roberto Gorjão em 21 de Março de 2006 às 14:34 :

    Lisete, obrigado pelas tuas palavras. A visibilidade, fá-la também quem lê. Espero que contribuas para a divulgação.

    Bruno, o teu comentário respeitante à legibilidade do menu lateral tem toda a pertinência. Muitas horas de trabalho me custou chegar a uma solução viável no Internet Explorer. A ausência de suporte para o formato PNG, porém, limita imenso as opções, sobretudo dados os meus requisitos: pretendia que o traçado/textura lembrasse um preenchimento gráfico ou pictórico, que mantivesse a transparência para que houvesse sobreposição perceptível com as barras dos títulos e que fosse modular por forma a suportar o layout elástico pelo qual optei… Tudo isto, apenas com GIFs (o único formato que suporta transparência para além do PNG e do Flash), como deves calcular, é obra. No entanto, porque de facto o Macintosh , por utilizar uma gama de tons diferente, apresenta o fundo mais claro — dificultando assim a leitura — e porque é possível utilizar o PNG para todos os outros navegadores, criei uma versão ligeiramente diferente para estes utilizadores. Penso que notarás agora a diferença. Ficarão a ver da mesma maneira apenas os utilizadores do IE em versões inferiores à 7, o que se corrigirá naturalmente com o tempo.

  4. Bruno Laborinho em 21 de Março de 2006 às 15:15 :

    Pois, quanto à questao do menu o problema é compreensível… eu próprio, como sabe, experienciei problemas com pngs, mas felizmente no meu caso a solução foi rápida e nao causou diferença no resultado final.

    Até ao próximo post! :)

  5. José Borges em 21 de Março de 2006 às 20:31 :

    Excelente site. Intimista e de personalidade vincada. Serve bem o seu criador (penso eu). Um artigo inaugural apaixonante e vigoroso. Aguardo com expectativa o proximo pensamento.

  6. Margarida Fernandes em 24 de Março de 2006 às 9:17 :

    Há decisões que são tomadas no topo da hierarquia que nos deixam a cabeça baralhada… Será que o Ministério da Educação desconfia da qualidade dos cursos que APROVOU e, por isso, tenta remediar obrigando os futuros professores a realizar um exame onde serão testadas as capacidades já avaliadas ao longo do curso? Não será que esta medida está a passar um atestado de incompetência às próprias universidades? E que tal os cidadãos começarem a exigirem a responsabilização daqueles que tomam más decisões apesar de terem consciência dessas más decisões?

    E agora um ponto positivo… Parabéns não só pelo aspecto gráfico do blogue (como diria um arquitecto meu amigo, é limpinho) como pela qualidade que se vê e se prevê.

  7. António Gorjão e MPaz em 26 de Março de 2006 às 21:57 :

    Parabéns pela excelente imagem do “sítio”.
    Segundo a mesma lógica, devia depender de exame de estado o acesso a qualquer profissão e, sobretudo, ao exercício de funções governativas…Devias enviar o texto para os sites dos Ministérios da Educação e da Ciência, Teccnologia e Ensino Superior.
    Um abraço.

  8. deby em 28 de Março de 2006 às 22:19 :

    ola stor gorjão!!!!!! então? estou a gostar muito muito do seu site….parabéns realmente está muito bem trabalhado e com uma profissionalidade muito grande!!!!!!!! desenha muito bem é claro………até breve

  9. Bruno Gorjão em 16 de Junho de 2006 às 17:05 :

    Evito, por razões profissionais e não só, pronunciar-me sobre questões políticas e/ou religiosas por escrito. Todavia, não deixo de estar solidário com a luta dos professores e por um melhor ensino. E aproveito para chamar a atenção para o seguinte: não é apenas a educação que vem sendo paulatinamente trucidada no nosso país, seja por PS, seja por PSD. É-o também a Justiça. Já repararam que com a “invenção”, de hoje, de agora as testemunhas poderem depor por escrito, fica facilitada a tarefa de os advogados “instruírem-nas”, sem os Juízes poderem sequer vê-las para verificarem que poderão estar a mentir? Que poderão mesmo nem sequer ser as testemunhas a deporem por escrito, mas sim alguém a escrever “convenientemente” o seu depoimento?

  10. António Daniel em 07 de Julho de 2006 às 0:37 :

    Acima de tudo, escreves bem!
    Desde já, e para que não fiquem quaisquer dúvidas, sou professor. Como tal devo esclarecer que vivemos actualmente num excesso de informação que leva inevitavelmente a uma subinformação. Neste aspecto, nas mais variadas vertentes, este governo é mestre. Devem ter excelentes profissionais da educação a trabalhar… No que respeita ao presente tema, devo dizer que não me coloco nas posições miserabilistas dos sindicatos, pois admito que a avaliação nunca fez mal a ninguém, nem nas posições sexualmente excitadas da ministra, ou o seu sobre-excitado Secretário de Estado. Quando se fala de educação qualquer forma que promova uma visão simplista é errada e falaciosa. É o que se tem feito! Expressões como «os professores são os responsáveis pelo insucesso escolar» ou «as escolas promovem as desigualdades» são perniciosas e profundamente falaciosas. Contudo, quer queiramos quer não, caem como música dos ouvidos do senso comum. Aliás, o que melhor passa é o superficial, apesar de sabermos que a realidade é complexa, possui múltiplas variáveis a começar, porque não dizê-lo, pelas universidades. Quem as avalia? Que tipo de ensino é protagonizado? Que tipo de formação é transmitida aos futuros professores?
    Muito mais haveria a dizer. Para melhor esclarecimento dos problemas educativos é de leitura obrigatótia o último livro do Nuno Crato. Nele são desmontados discursos proferidos por grandes responsáveis da educação dos últimos governos, confrontando-os com o que de maravilhoso tem acontecido na educação. Leiam para melhor ficarem esclarecidos!
    PS: parabéns pelo blogue!

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